O papel da glutamina no paciente oncológico. Imprimir E-mail
 

 A glutamina é o aminoácido livre mais abundante no plasma sanguíneo e no tecido muscular esquelético. É considerado "condicionalmente essencial" já que em situações de hipercatabolismo (queimaduras extensas, sepse, infecção, trauma) e estados de imunodeficiência (neoplasias) a sua demanda aumenta consideravelmente, ocorrendo mobilização de glutamina dos estoques corporais para suprir a aumentada necessidade.

            A maioria dos tecidos consome a glutamina. Para o epitélio intestinal este aminoácido representa o primeiro combustível oxidativo, responsável pela integridade da mucosa e o trofismo das vilosidades, exercendo um papel de manutenção da estrutura intestinal.

            A glutamina, por constituir um nutriente imunomodulador, também é substrato fundamental para as células do sistema imunológico, estimulando a multiplicação de linfócitos, a diferenciação das células B, a produção de interleucina 1 e a fagocitose dos macrófagos. As células NK (do inglês "Natural Killer cell"), um tipo de linfócito importante no combate de células tumorais e infecções virais, são dependentes de estoques adequados de glutamina para sua proliferação. A glutamina também exerce um efeito imunoestimulante local, aumentando as células T intestinais.

            Em pacientes com câncer há uma marcante depleção de glutamina, já que o tumor se alimenta avidamente da energia (ATP) que a mesma libera. Esse importante consumo ocasiona um impacto negativo no funcionamento dos tecidos dependentes de estoques adequados de glutamina (por exemplo, células intestinais e de defesa). Associado a isso, a quimioterapia (QT) e a radioterapia (RT) exacerbam o dano nesses sistemas devido sua intensa toxicidade celular.

Sendo assim, o paciente apresentará maior gravidade, freqüência e duração dos sintomas gastrointestinais (como diarréia e mucosite) e se torna mais susceptível a contrair infecções. Como conseqüência é observada baixa ingestão alimentar somada a perda de massa muscular e gordurosa, levando a desnutrição e por vezes insucesso do tratamento.

            Estudos sugerem que a suplementação de glutamina possa ajudar na prevenção dos efeitos tóxicos do tratamento antitumoral, pois evitam a depleção dos estoques, além de produzir subprodutos protetores às células normais.

Os pesquisadores Boligon e Huth (2011) verificaram menor prevalência e severidade da mucosite em pacientes com câncer de cabeça e pescoço durante o tratamento radioterápico e/ou quimioterápico que utilizaram glutamina, quando comparados ao grupo controle (sem ingestão de glutamina). Além disso, o Índice de Risco Nutricional aumentou nos pacientes sem glutamina. Anderson et alli encontraram dados semelhantes, onde a suplementação de glutamina também reduziu significativamente a duração da mucosite durante tratamento quimioterápico.

A glutationa (GSH), subproduto do metabolismo da glutamina, protege as células normais contra a injúria oxidativa. Foi observado que a toxicidade da QT e RT são maximizadas quando os níveis de GSH intracelular encontram-se baixos. Contrastantemente, as células tumorais possuem menor quantidade de glutationa intracelular, permitindo maior ação do tratamento oncológico nessas células.

Esse fato sugere que a glutamina influencie na seletividade das drogas quimioterápicas, através da proteção das células normais ao mesmo tempo em que aumenta a sensibilidade (desproteção) das células tumorais à QT.

            A suplementação desse aminoácido pode ser realizada via enteral (através da ingestão oral ou pelo uso de sondas) ou parenteral (via acesso venoso). A via enteral demonstra ser a melhor escolha, pois além de elevar a glutamina sanguínea, promove trofismo da mucosa intestinal ao ser absorvida.

Das formas comercializadas a preferível é a em pó, pois é melhor palatável, absorvível, fácil de usar e bem tolerada. A dose diária varia de acordo com a necessidade de cada paciente e deve ser dividida durante o dia para aumentar o seu contato com os enterócitos.

A glutamina é contra-indicada para pacientes com hiperamonemia e/ou encefalopatia hepática.

Atenção: Antes de consumir suplementos nutricionais consulte seu médico e/ou nutricionista.

Fontes:

ALBERTINI, S, RUIZ, M.A. Nutrição em transplante de medula óssea: a importância da terapia nutricional. Arquivos de Ciências da Saúde, 11(3):182-8, 2004.

ANDERSON, P.M., SCHOROEDER, G. SKUBITZ, K. Oral glutamine reduces the duration and severity of stomatitis after cytotoxic cancer chemotherapy. American Cancer Society, 83:1433-39, 1998.

BOLIGON, C.S., HUTH, A. O impacto do uso da glutamina em pacientes com tumores de cabeça e pescoço em tratamento radioterápico e quimioterápico. Revista Brasileira de Cancerologia, 57(1):31-38, 2011.

PACCAGNELLA, A., MORASSUTTI, I. e ROSTI, G. Nutricional intervention for improving treatment tolerance in cancer patients. Curr Opin Oncol, 2011.

SAVARESE, D.M.F, SAVY, G et alli. Prevention of chemotherapy and radiation toxity with glutamine. Cancer Treatment Reviews, 29:501-513, 2003.

Cláudia Argenton
Nutricionista
CRN/PR 4647